Há vinte e dois anos temos tido uma rotina ininterrupta na criação de cursos. Como qualquer outra tarefa, ela é rica e atraente em alguns momentos, cansativa e angustiante em outros. É angustiante quando o tempo vai passando e não conseguimos nos decidir sobre qual rumo tomar. É rica quando nos deparamos com algo novo e revelador.
Não é comum encontrar algo muito novo e radical, tão original que nunca sequer tínhamos pensado sobre aquilo. Mas é exatamente isso que encontramos com a leitura do livro Segure-os antes que caiam de Christopher Bollas. Nele, o autor apresenta um modelo de tratamento para pacientes à beira de um colapso ou em colapso, e sua proposta é interessantíssima.
É difícil saber em que extensão cada um de nós conseguirá aplicar sua técnica em nossos consultórios, mas uma coisa nos parece certa: não tem como não sair transformado da leitura deste livro, e ainda que não nos seja possível fazer exatamente como o autor, nosso olhar para pacientes colapsando dificilmente será o mesmo. A partir de nossa experiência pessoal, acreditamos que o contato com as ideias do autor apresentadas nesse livro transforma a maneira pela qual enxergamos qualquer paciente em grande sofrimento, nos deixando mais livres para agir de acordo com sua verdadeira necessidade. Pelo menos foi essa a experiência que tivemos e é ela que acreditamos que cada leitor do livro terá.
Na leitura desse livro nos deparamos com o ápice de um ser humano devotado à sua profissão e a seus pacientes, um analista único e que nos provoca sentimentos inevitáveis de ineficiência. Em seu livro Resposta sobre o que é o esclarecimento, Imannuel Kant diz que para atingir a maioridade intelectual o ser humano precisa ser capaz de pensar por si mesmo. Na base desse movimento, diz ele, está a Coragem. A Coragem é uma virtude pouco trabalhada e pouco valorizada, mas ela é simplesmente fundamental. Bollas é um autor corajoso, e isso o torna especial. No presente curso leremos juntos o livro de Bollas. Mergulharemos em uma experiência de tratamento inovadora, fruto de décadas de trabalho e aplicada inúmeras vezes pelo autor.
Aula 1 - Introdução ao tema do Colapso Mental através de uma abordagem radical de atendimento em casos de extremos sofrimento.
O autor nos
explica o que é um paciente em colapso e como ele leva o setting para
extremos da maleabilidade com o intuito de conter emocionalmente o colapso,
evitando duas coisas: 1) que o paciente volte para defesas radicais; 2) que uma
internação seja necessária.
Bollas nos conta que toda a ideia de uma espécie de contenção
psicanalítica do colapso se deu quando ofereceu uma sessão de um dia inteiro a
um paciente. A partir dessa experiência inicial ele foi, ao longo dos anos,
aprimorando sua técnica para suportar pacientes à beira de um colapso ou já
colapsados.
Suas ideias estão intimamente ligadas ao manejo inovador de Winnicott, um
psicanalista muito empático e disposto a entender a necessidade específica de
cada paciente.
Bollas nos conta que em algum momento começou a perceber que havia
deixado escapar algo importante em seu trabalho como clínico. Deu-se conta de
que pacientes relativamente normais escondiam, não intencionalmente, claro, o
fato de que em algum momento seus selves tinham se colapsado. Todos
esses pacientes haviam passado por situações traumáticas na vida adulta e
vivenciado um colapso interno, às vezes mudo.
Sendo assim, não eram mais capazes de utilizar suas habilidades, de
vivenciar experiências afetivas, se engajar em projetos duradouros, muito
embora suas vidas seguissem de forma aparentemente normal.
Esses pacientes podem vir a vivenciar o colapso oculto na terapia, e é aí que entra a maneira inovadora de trabalhar com esses casos. A originalidade de Bollas está ligada tanto ao fato de ser capaz de perceber os sinais do colapso quanto em relação à abordagem clínica que, como veremos, é transformadora.
Aula 2 – Segure-os antes que caiam: os sinais do colapso e as diretrizes em relação ao manejo.
Veremos nessa aula, e esse é um aspecto de maior relevância, quais são os
sinais de que um paciente está para entrar em colapso.
Há colapsos nos quais os sinais são claros e graduais. É muito importante
o fato de o analista se antecipar, a partir dos sinais, e ser capaz de agir
antes do colapso. No caso, o analista não necessariamente evitará o colapso,
pois o autor não diz que esse é seu papel, mas o vivenciará junto com o
paciente, para que este encontre, na saída, uma espécie de renascimento, cujo
principal ganho é o fortalecimento psíquico, seguido por mudanças
significativas. Bollas apresenta de maneira clara a forma como lida com esses
casos.
O autor também nos apresenta um tipo de colapso no qual não há sinais ou
avisos prévios, os motivos para que isso ocorra e a técnica específica e
imediata para lidar com esses casos.
Perceberemos que a atividade correta e direcionada do analista é
fundamental, e que é imperioso o terapeuta saber esticar sua técnica para
atingir o paciente nesse estado mental.
Bollas nos oferecerá diretrizes muito claras de como ele lida com o
colapso, desde a plasticidade do setting até o manejo de honorários, de forma a
propor um compromisso de um ser humano para outro muito singular e que nos
incentivou a oferecer esse curso.
Aula 3 – Exemplos clínicos: Emily, Anna e Mark.
Emily era
uma mulher na casa dos trinta anos. Apesar de competente no trabalho, sentia
que seu desempenho não era real e tinha medo que seus colegas de trabalho
descobrissem que ela não era nada daquilo. Tinha uma história de separações,
sentia muito medo e era muito tímida. Bastante vulnerável, tinha dificuldade de
confiar nas pessoas. Amparava-se em seu namorado.
O colapso de Emily se deu após
encontrar o apartamento vazio, pois seu namorado a tinha deixado.
Na sessão seguinte, a paciente
conta que deu perda total no carro. A partir daí e de outros indícios, Bollas
entende que a paciente está colapsando, e começa a agir de maneira intensa. O
médico sugeriu internação, mas Bollas resolveu tentar conter o colapso por meio
da análise.
Por três semanas seguidas ele a viu
todos os sete dias da semana. Depois, por dois meses, passou para cinco vezes
por semana. Três meses depois, Emily superou seu colapso. Contudo, não da mesma
forma que teria superado se fosse internada, mas de maneira muito mais
profunda. Há uma grande diferença entre superar um colapso por meio de um
vínculo transformador ou fazer isso por meio da recuperação das defesas que
seguravam o colapso até então. No primeiro caso há uma evolução e um uso do
colapso, no segundo, uma involução e reedição do trauma.
Bollas conta que no caso de Emily,
ele demorou a agir, mas aprendeu muito com esse atraso. Todo conteúdo restante
do livro trata da técnica por ele utilizada nos períodos em que atende o
paciente de maneira intensa com a finalidade de permitir a vivência afetiva do
colapso e seu uso.
Essa aula ainda será ilustrada com
dois outros exemplos clínicos, de Anna e de Mark.
Aula 4 – Os meandros da construção de uma história não contada e a mudança estrutural.
O essencial do
colapso é que ele é uma oportunidade única de mudança psíquica. É por isso que
uma internação ou um tratamento baseado em medicação e recuperação de antigas
defesas pode ser horrível para a vida do paciente. O que Bollas quer nos
ensinar, acima de tudo, é que se o colapso for aproveitado pelo analista, o
paciente sai dele recuperado. O autor oferece um tratamento intensivo realizado
por ele mesmo e muitas vezes por uma equipe de apoio.
O paciente prestes a colapsar ou a
enfrentar um sofrimento atroz tem diante de si a oportunidade de fazer seu
passado se transformar em uma história. É uma reintegração que ele busca
inconscientemente, motivo pelo qual colapsa quando acredita que pode ser
suportado por alguém que possa proporcionar esse suporte.
O motivo do colapso, portanto, é
que parte das defesas utilizadas para evitá-lo está desmoronando. Às vezes, o
paciente procura análise por sentir que algo perturbador está a caminho. Bollas
diz:
“Quando, por fim, há alguém para receber o
inexplicavelmente doloroso, o confuso, o horripilante, a maioria das pessoas...
entram em colapso.” (P. 120)
Percebam a profundidade da fala
acima. É quando tem alguém em condições de receber o conteúdo horripilante que
o sujeito pode enfim colapsar.
É aí que entra a técnica que o
autor vai sugerir, para que possamos “Segurá-los antes que caiam”. Um fator
fundamental, como já vimos, é a disponibilidade interna do analista. Outro, é o
tempo. O colapso precisa de tempo para acontecer dentro de uma relação humana.
A disponibilidade de Bollas é
impressionante e, justamente por isso, o autor descobriu que os colapsos que
tratou não duravam muito, mas acabavam brevemente.
Nessa aula o autor aprofunda os
detalhes de sua técnica.
Aula 5 – Mudança psíquica, conclusão e perguntas e respostas
A lógica por
trás do pensamento de Bollas no presente livro é a de que se o analista
consegue perceber que um paciente está à beira de um colapso, ele consegue
segurá-lo. O motivo principal para darmos importância a isso é que, para o
autor, o colapso é uma necessidade psicológica para que se lide com questões
adiadas.
O primeiro passo, portanto, é
detectar que o paciente está colapsando, o segundo, é promover ajustes na
técnica, tanto formais no que concerne ao setting quanto relacionados à
técnica em si mesma.
Bollas acredita que se o paciente
não for socorrido retomará defesas radicais. Para ele, um bom amparo no momento
do colapso pode fazer o que poderia levar anos de análise caso o paciente
tivesse que retomar suas antigas defesas. Esse é o motivo pelo qual pensa que
internar um paciente em colapso é um desastre psicológico. Seria como renascer
em um ambiente não humano.
O autor declara que em trinta e
cinco anos de experiência trabalhando com sua técnica com pacientes colapsando
nunca teve que internar um paciente. Reconhece que pode ter tido sorte também,
mas que esse resultado é indicativo claro do poder do tratamento psicanalítico
de pacientes em crise.
Bollas finaliza respondendo algumas
perguntas em uma entrevista sobre o tema. Seguem algumas delas:
·
Você afirma que um clínico com pouca experiência
poderia utilizar sua técnica. Mas a realização de um trabalho assim não exige
muita experiência do analista?
·
A alteração que você faz do setting é
radical e você é extremamente solícito. Isso não o tira do papel de analista?
·
Sua avaliação de que um paciente está em colapso
pode diferir da de outro analista. Há aspectos em comum nos pacientes
colapsando?
·
Essa forma de trabalhar não seria exclusivamente
sua? Ela pode ser ensinada?
·
Você acha que as técnicas de TCC podem realizar
o mesmo tipo de trabalho?
·
Os pacientes ficam surpresos quando você anuncia
a mudança no setting?
·
Você já sugeriu esse tipo de alteração na
técnica para pacientes que não estavam em colapso?
·
Você conhece mais alguém que trabalha assim?